Crítica teatral do espetáculo:
FELIZ ANO NOVO – UM EXPERIMENTO SOBRE A VIRADA
Com uma atmosfera festiva, Feliz Ano Novo é um espetáculo que celebra a renovação sem deixar, por seu turno, de se posicionar politicamente
Se você pudesse recomeçar a sua vida, o que faria de diferente? Esta seria, em termos sumários, a questão básica levantada pelo espetáculo Feliz Ano Novo: Um Experimento sobre a Virada, último trabalho do grupo joseense Laboratório Teatro Químico. Por intermédio de sugestivas indagações textuais projetadas na rotunda, anteriores aos primeiros movimentos do elenco e que, por isso, configuram uma espécie de prólogo mudo, de imediato o público se vê apresentado ao campo temático propugnado pela obra.
Enquanto a maior parte das projeções se desenrola, os atores e atrizes, sentados ao fundo do palco, permanecem imóveis. À medida que tais indagações vão se delineando mais claramente, um deles se levanta, dirige-se até o centro do palco, onde se encontra um microfone preso a um pedestal, e declara, em seu próprio nome, o que teria feito de diferente em algum momento específico da sua vida. Com essa “deixa”, além do campo temático, revela-se também aos espectadores o universo formal de Feliz Ano Novo, que evoca uma teatralidade alocada numa zona limítrofe entre o real e o ficcional. Ou, em outras palavras, entre ação e representação.
Como diz uma das frases estampadas no pano de fundo, “toda forma de relato é uma tentativa de reproduzir a realidade através de palavras. Logo, é uma espécie de ficção”. Ampliando semelhante noção para o campo das artes, ela poderia ser assim exposta: por mais reais que sejam os testemunhos ali emitidos, uma vez formalizados em linguagem teatral, eles perderiam o status de realidade para adentrarem no campo do “faz de conta” artístico. O limite a separar uma instância da outra, demasiadamente tênue, não permite aos espectadores identificá-lo com clareza. É nessa “vereda” que a teatralidade de Feliz Ano Novo procura se afirmar, valendo-se, para isso, de inúmeros recursos, a maioria dos quais baseados em técnicas de composição atoral.
Espetáculo construído a partir de testemunhos pessoais emanados do elenco, a maioria recaindo sobre episódios singulares vivenciados pelos componentes, sua concepção se insere no âmbito do “ator-criador”, ou seja, dentro de uma proposta colaboracionista na qual os atores e atrizes assumem o protagonismo do processo criativo. Fruto, todavia, de experiências muito particulares, não compartilhadas por mais ninguém do grupo a não ser pelo ator-atriz idealizador(a) da cena, é natural que uma obra assim concebida se caracterize pela presença de solos expressivos, cada qual contendo peculiaridades próprias.
Para que o espetáculo não se fragmentasse em solos autônomos, ainda que entrelaçados por uma temática comum, um expediente elaborado pela encenação revela-se de importância capital, servindo como elemento agregador: a ideia de inseri-los em uma situação específica, no caso, uma festa de réveillon, momento normalmente considerado como de renovação individual. Além de conferir unicidade à obra em questão – interligando os diferentes textos oferecidos pelos atores em um mesmo contexto, relacionado de perto à temática desenvolvida – semelhante recurso desempenha ainda um outro papel fundamental em Feliz Ano Novo.
Mais do que conectar os solos entre si, a proposição festiva da encenação serve também para “ritualizar” a cena, congregando o elenco e o público em uma mesma cerimônia, irmanados na comemoração da passagem de ano. Para que essa “ritualização” aconteça, não é necessária a inclusão ostensiva de assistentes no espaço cênico, rompendo por completo a linha que separa palco e plateia. Em Feliz Ano Novo isso só acontece em um momento muito específico do espetáculo, quando o ator Miltinho Toledo, ao se referir a uma meia-irmã com quem perdeu o contato, chama uma espectadora a “contracenar” com ele por alguns instantes. Na busca de obter a pretendida atmosfera de pândega, o que se faz é o seguinte: armar algumas mesas e cadeiras nas proximidades do local onde o elenco se movimenta para, na sequência, convidar uma parte da plateia a se sentar lá, servindo-lhe cerveja, champanhe e aperitivos.
Dessa forma, evita-se que a relação do público com o espetáculo se torne totalmente contemplativa, pois aquele, mesmo sem sair do conforto de sua posição, sente-se no fim das contas um participante da festa ali encenada, como se fosse um conviva. Semelhante ambientação, que atribui aos atores a função de “anfitriões”, serve também para amalgamar os solos, fazendo com que a irrupção de cada um se dê de maneira espontânea, quase como um desabafo feito numa (grande) roda de amigos. O quadro acima exposto se completa com as entrecenas, nas quais o elenco – formado por Natália Bastos, Milena Siqueira, Rodrigo David e o já mencionado Miltinho Toledo – atua em conjunto, sempre no sentido de reforçar ainda mais o caráter celebratório de Feliz Ano Novo.
Cabe fazer, aqui, uma distinção importante: apesar de haver nesse trabalho do grupo joseense um forte apelo narrativo, em razão de todos os solos se apoiarem em testemunhos particulares, essa narratividade não se insere no campo do teatro épico tradicional, circunscrito a uma diegese. Trata-se de um tipo de narração que, segundo o teórico alemão Hans-Thiers Lehmann, procura manifestar um contato direto com o público, na qual a ação é “exposta em estado de relato, transmitida como que de passagem”. Nessa seara, a presença (marcante) do ator em cena torna-se mais significativa do que qualquer representação, uma vez que o eixo de sua atuação se desloca no sentido de privilegiar o compartilhamento de uma experiência pessoal.
Se, no teatro épico, a proeminência recai na capacidade demonstrativa do ator, em obras como Feliz Ano Novo é a sua presença pessoal que importa. Isso ocorre porque, em vez de se configurar como um universo ficcional à parte, ou seja, apartado da plateia, o espetáculo em análise procura estabelecer com ela, acima de tudo, uma “situação de contato”, almejando realizar-se, por conseguinte, enquanto um acontecimento, algo bastante caro ao teatro contemporâneo.
Na encenação de Feliz Ano Novo, a cargo de Fernando Rodrigues, além de todos os elementos esmiuçados acima, observa-se uma dramaturgia de cena que se destaca, entre outras coisas, pelo uso criativo da luz e, em sincronia com esta, da trilha sonora, cuja seleção também parte de sugestões advindas do elenco.
Embora não seja o caso de se comentar um por um dos solos, o que tornaria esta apreciação demasiadamente longa, face a tudo o que foi examinado, registre-se que eles alternam momentos mais líricos a outros, por assim dizer, mais instrutivos. Exemplo desta última “vertente” seria o solo protagonizado por Rodrigo David, relatando sua experiência pregressa como funcionário de um grande banco. Realizado ao modo de uma palestra motivacional, valendo-se inclusive do uso de projeções, ele apresenta, pelo viés da ironia, uma ácida crítica ao ideário liberal-burguês, segundo o qual todo mundo pode “chegar lá” desde que, é claro, se esforce o bastante para isso. Como se vê, os votos de renovação transmitidos por meio desse encontro, extremamente simpáticos e alvissareiros, não prescindem de uma certa dose de esclarecimento, demonstrando que aquela confraternização, além de divertida, não tem nada de alienada.
Rodrigo Morais Leite
Rodrigo é doutor e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos. Atuando como crítico ou como curador, participou de diversos festivais de teatro.
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